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É possível ser sustentável na ourivesaria?

Entrevista com Geraldo Labriola


Sustentabilidade. Sinônimo de preservação dos recursos naturais, é uma condição que indica longevidade, ou seja, quando algo se torna perene ao longo das gerações. O termo passou a ser difundido na década de 70 para se referir à necessidade de conservarmos o meio ambiente, mas logo ganhou importância também na área social e econômica. Atualmente, é impossível falar de qualquer ação ou produto sem questionarmos primeiro seu possível impacto no mundo. Estamos muito mais atentos à qualidade de vida e à conservação do planeta. E, no universo da ourivesaria, isso também tem valor inestimável.

Em recente entrevista ao nosso blog, o mestre ourives GERALDO LABRIOLA esclareceu alguns aspectos, e compartilhamos aqui suas reflexões.




Blog - Como você entende a sustentabilidade na ourivesaria?

Geraldo Labriola - Esse é um tema interessante e, se analisarmos bem, talvez a área da ourivesaria tenha sido uma das primeiras a pensar em reciclar os resíduos, muito em função do valor do material utilizado e da dificuldade para adquiri-lo. Por isso, um dos aspectos mais importantes nas oficinas é o cuidado com a renovação destes. Felizmente, podemos reaproveitar quase tudo, inclusive o próprio "lixo". Hoje guardamos praticamente tudo que é produzido para o posterior processo de purificação. Isso nos permite reduzir a compra de novos materiais, então diminuímos os custos na produção e causamos menos impacto no meio ambiente.



Blog - Você poderia explicar melhor o que significa aproveitar os resíduos na oficina de ourivesaria?

Geraldo Labriola - Eu me refiro à reutilização de materiais diversos, desde joias antigas que podem ser fundidas e transformadas em novas peças, até o pó (a limalha) que cai na bancada durante a produção e pode ser purificado, incluindo os pequenos retalhos que são desprezados cuidadosamente. E há também o aproveitamento que fazemos a partir do processo de decantamento da água onde são banhadas as peças, extraindo o pó que fica no fundo do recipiente. As grandes joalherias, por exemplo, adotam um sistema interessante em suas oficinas, instalando um tapete próprio para sugar o pó dos calçados. Claro que tudo isso é pensado por uma vantagem econômica, em primeiro lugar. Nós bem sabemos o valor que tem cada grama dos metais preciosos e não podemos desperdiçar absolutamente nada. Porém, essa lógica reduz a aquisição de novos materiais e, consequentemente, isso beneficia também o meio ambiente. Quanto mais utilizamos o que já circula por aí, melhor. E o custo da produção fica significativamente mais interessante.




Blog - A ourivesaria pode ser sustentável de que outras formas?

Geraldo Labriola - Na medida do possível, além da reutilização de materiais diversos, temos procurado substituir o uso de produtos agressivos. Aqui no Ateliê, por exemplo, adotamos o sal branqueador para o banho de limpeza do metal, no lugar do ácido sulfúrico. Há outros produtos que devem ser evitados e, por isso mesmo, é fundamental estarmos sempre pesquisando e nos atualizando para buscar alternativas mais ecológicas para a nossa prática. Antigamente, para não comprometer o acabamento de peças com aqueles cantinhos inacessíveis, o ourives utilizava o cianeto na limpeza. É um produto superperigoso ao ser inalado, chegando a ser fatal. Então, obviamente, é um ácido que deve ser totalmente excluído das oficinas. A ciência e a tecnologia nos ajudam muito, pois as pesquisas vão encontrando soluções melhores para adaptar os procedimentos necessários na confecção das joias.


Blog - Como você vê o cenário em torno da ourivesaria antes e agora?

Geraldo Labriola - Ao olharmos para a história podemos constatar um enorme impacto nas relações de fronteiras, por exemplo. A extração e comercialização do ouro e de pedras preciosas marcou para sempre o modo como alguns países foram explorados por outros, e como isso se repercute até hoje em termos de desenvolvimento social e econômico. O Brasil tem se mantido no epicentro das discussões por causa do avanço do desmatamento devido ao garimpo ilegal. Claro que há consequências que atingem tanto as grandes indústrias de joias quanto os ateliês de médio e pequeno porte. Sendo assim, para garantir a procedência do metal que utilizamos nas oficinas, é preciso manter uma rede de fornecedores confiáveis. Na nossa área, conhecer com quem trabalhamos é imprescindível. Você tem que saber de onde vem o metal comercializado pelos fornecedores e, preferencialmente, acompanhar de perto o que ocorre no mercado e nas regiões das quais os materiais são extraídos.


Blog - De que outras maneiras seguras podemos obter metais?

Geraldo Labriola - Outra medida é a reutilização de peças que já existem. Podemos comprar peças em leilões, por exemplo, e fazer a purificação do metal. Há fornecedores que já fazem isso, mas precisamos também ficar atentos à cadeia como um todo, pois algumas dessas empresas usam produtos que agridem o meio ambiente e nem todas se preocupam com o fluxo desses elementos químicos no sistema público de saneamento. Ou seja, trata-se de um procedimento que exige boa infraestrutura para não impactar seu entorno. Há empresas que purificam corretamente a água utilizada no processo antes de descartá-la. No Brasil, como a produção da prata é essencialmente feita por empresas de purificação, a partir de resíduos industriais e hospitalares, como é o caso da chapa de raio x, devemos ser ainda mais seletivos quanto aos fornecedores.


Blog - E por falar em prata, este metal está ganhando ainda mais notoriedade. Por quê?

Geraldo Labriola - A prata sempre foi valorizada, mas o ouro costumava ser o metal mais procurado, até por conta das suas características. Embora similares, esses metais não se equivalem; as propriedades do ouro são melhores, a começar pela oxidação. Veja que, se não fosse por isso, os componentes eletrônicos seriam fabricados em prata, e não em ouro. Na época do descobrimento das américas, a prata valia em torno de dois terços do ouro. Era um valor substancial, mas deixou de ser quando começaram a extrair mais metal. É a lei da oferta-demanda; quanto mais disponível, menor o valor. Porém, não temos como fugir da associação do ouro com o garimpo ilegal, e isto também impacta diretamente o uso social do metal. Por uma questão de consciência, as pessoas que consomem joia acabam evitando comprar peças de ouro. Por isso, sempre reforço que há maneiras sustentáveis de continuar comercializando joias em ouro. O metal pode percorrer vários caminhos antes de chegar à bancada do ourives, mas o profissional pode traçar bem sua trajetória e buscar sempre fornecedores certificados e confiáveis. Além disso, vale repetir que o reaproveitamento de materiais pode apaziguar o dilema.




É sempre muito bom conversar com quem tem experiência na área. Nós agradecemos pelas informações, Geraldo, e, como você mesmo nos disse, o assunto é inesgotável, portanto é sempre importante continuarmos buscando outros ângulos para entendermos melhor essa questão.


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